A pele que me pertence - Relatos de uma preta além mar

22:25


Você já parou para pensar qual é a realidade da mulher negra no Brasil? Esses dias eu estava no trabalho, quando ouvi uma colega dizer algo mais ou menos assim: "Minha amiga negra disse que, se pudesse, arrancaria sua pele e trocaria por outra." Eu fiquei tão chocada ao ouvir aquilo, que em vez de iniciar um debate sobre autoestima, negritude, afirmação, coisa e tal, eu me vi pensando: “por que a realidade é assim para tantas de nós, mulheres negras? Agora, será que é assim só aqui?”. Pois bem, hoje temos a oportunidade de ouvir de uma crespa que vive em Angola,Isamara Silva, um pouco da realidade dela neste país. A Isa me procurou pedindo algumas dicas de transição capilar. O motivo foi que lá pouquíssimas mulheres usam seus cabelos naturais. O costume das ricas é usar  apliques e perucas, e para as não tão ricas, alisantes químicos. Opa!!! Como assim?! Angola não faz parte da África? O continente de onde tantas de nós, crespas e cacheadas, buscamos inspiração? Pedi à nossa querida que escrevesse um relato para o Aumente o Volume. Para minha surpresa, ela atendeu meu pedido e me deixou ainda mais pensativa. Confira o relato da Isamara, e depois retomamos esse papo de autoestima no final do texto.
Essa é a Isa!
"Primeiramente, gostaria de dizer que fiquei muito feliz pelo convite da Polly para escrever sobre um pouquinho da minha realidade aqui em Angola para o blog! Muito feliz mesmo! É bom perceber que uma das minhas inspirações nesse mundo crespo é gente como eu e que se interessa por algo que não faz parte do cotidiano dela, e sim do meu, uma pessoa que ela nem conhece, mas que ainda assim se disponibilizou a ajudar e esclarecer em minhas dúvidas quando precisei =)
 Eu vim morar em Angola pelo motivo mais sublime de todos, o amor, ah o amor... Casei com um angolano e por esse motivo deixei família, amigos, emprego e vim acompanhar o meu marido. Chegando em Angola encontrei uma realidade bem diferente da minha! Encontrei carros que nunca ou muito raramente via no Brasil, mansões luxuosérrimas, casas de pau a pique, pessoas extremamente ricas, pessoas extremamente pobres, e todas convivendo “harmonicamente” quase que no mesmo espaço físico. Entretanto o que mais me chocou e devo confessar que me choca até hoje aqui é constatar o quão preconceituoso pode ser um país majoritariamente negro!
Área luxosa em Angola
 
Em outra área casas simples

Seria hipocrisia da minha parte dizer que não existe preconceito no Brasil, é óbvio que existe, e negar isso seria negar um fato. Mas, o preconceito que existe aqui é diferente, e ainda não consegui descobrir se é um diferente “bom” ou um diferente “ruim”, se é que existe preconceito bom e ruim.O que eu percebo aqui é a desumanização do negro, é como se o negro fosse um tipo inferior de gente; o que algumas pessoas aqui não percebem é que todos nós, negros/pretos, brancos, amarelos, vermelhos, somos seres humanos, todos nós pertencemos a raça humana, o que nos diferencia são os fenótipos e nada além disso. No Brasil, sinto-me uma mulher preta que, assim como uma mulher branca, tem direitos, deveres, capacidades, limitações, anseios, problemas, além de todas as outras coisas inerentes a qualquer ser humano; aqui sinto-me uma mulher preta que precisa provar constantemente que é inteligente, articulada, relativamente bonita, interessante … Porém, antes de qualquer coisa é um ser humano tão capaz quanto outro, independentemente da cor da minha pele.A maioria das pessoas pode achar que esse tipo de situação teria mais sentido em um país europeu, onde a maioria da população é branca. Concordo plenamente! Acho inadmissível, triste, deprimente, entre tantas outras coisas viver esse tipo de preconceito aqui e depois tentar entender a razão pela qual muitas pessoas praticamente imploram e brigam para serem chamadas e consideradas mulatas. Outras, ainda, fazem questão de dizer que são um pouco mais claras ao realizar comparações – como se o ser mulato, mais claro ou menos escuro fosse algum tipo de troféu.Cheguei a humilde conclusão de que falta consciência à essas pessoas. Consciência de negritude! Consciência de que somos tão capazes e ao mesmo tempo tão limitados quanto qualquer outro ser humano, consciência de que eu não preciso comprar cabelo brasileiro (é assim que chamam os melhores cabelos utilizados aqui para colocar implante) para estar bonita, consciência de que eu não preciso ter filhos com brancos para “melhorar a raça”, consciência de que o branco e eu pertencemos a mesma raça e que a única diferença real entre nós é a cor da pele.É claro que nem sempre os negros têm as mesmas oportunidades que os brancos, mas tivemos a vida toda para nos acostumarmos com isso. Então, acho que já passou da hora de pararmos de reclamar e nos fazermos de vítimas e começarmos a buscar, criar e escavar oportunidades, caso seja necessário. "
E é no final do texto que me vejo apreensiva. Será que nós, mulheres negras acostumamos com o rótulo de vítima? Eu sei que cada uma escreve sua própria história, mas não adianta querer negar que a sociedade nos impacta... Eu conheço várias mulheres negras que não se fazem de vítima e se orgulham de si mesmas como ser humano, mas ainda há tantas outras que não conseguem se enxergar como cidadãs atuantes! E se tocarmos no assunto cabelo então... Quantas amigas minhas já se sentiram inseguras antes de uma entrevista de emprego porque são crespas? Quantas antes de iniciar a transição capilar se questionam se vão ser criticadas pelo visual? Muitas.Já falei sobre cabelo e identidade AQUI para quem quiser conferir.
Fiquei pensando em como podemos mudar essa realidade e a Isa me lembrou da música Até Quando do Gabriel Pensador que diz:
"Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a genteA gente muda o mundo na mudança da menteE quando a mente muda a gente anda pra frenteE quando a gente manda ninguém manda na gente!Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem curaNa mudança de postura a gente fica mais seguroNa mudança do presente a gente molda o futuro!Até quando você vai ficar levando porradaAté quando vai ficar sem fazer nadaAté quando você vai ficar de saco de pancada?"
Quero te convidar a empoderar mais e mais mulheres negras. Alcance a que estiver pertinho... Creio que já seja um bom começo!Prometo pesquisar mais sobre o assunto da afirmação da mulher negra. Não sei se amo o termo afirmar, mas o uso no sentido de se sentir bem em sua própria pele, sabe? Como disse a Stéphanie Paes, escritora do blog Falando sem permissão, o senso comum é que "ser mulher negra no Brasil significa passar a vida inteira tentando descobrir se você está sendo inferiorizada por ser mulher, ou por ser negra". Eu quero poder ajudar outras a não serem inferiorizadas!E aí,o que vocês acham? Divida conosco as suas sugestões. Juntas, somos mais fortes!

Now Playing: Gabriel O Pensador - Até Quando 

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4 comentários

  1. Triste realidade. Deprimente os seres humanos - incapazes de compreender que as "diferenças" somam e não dividem.
    Preto, branco, amarelo, mulato, gordo, magro, alto, baixo, gay, hétero, pobre, rico... onde está a grande diferença, senão na capacidade de amar e compreender?
    Isa, minha querida amiga, poderia ter qualquer outra cor, qualquer outro cabelo, religião, altura, nacionalidade... nada disso é tão relevante quanto a nobreza da sua alma!
    Lutemos todos, sempre, por uma sociedade mais amável, solidária e sem preconceitos!

    Adorei o espaço!

    Patricia Barbosa

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  2. Acho complicado falar que a mulher negra se faz de vítima ao passo que sabemos da existência de ambos os preconceitos. Não nos fazemos de vítima. Pergunto a autora do texto se ela sente que se faz de vítima com todos os argumentos que ela muito bem explicitou. Não é fácil engolir o preconceito, mas não podemos julgar quem se submete a ele justamente nas condições em que vivemos hoje em dia.
    Quase todas nós começamos a mudar a estrutura de nossos cabelos quando éramos crianças. Nos fazíamos de vítima? A rejeição cresceu dentro de nós. Por isso a dificuldade de aceitação. Não vou me prolongar mais pois acredito que a autora tenha se expressado mal, espero. Me senti ofendida. Abraço a todas.

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  3. Eu conheço bem a realidade angolana! :(
    Como faço alguns trabalhos como modelo e sou natural, com um Big, Mega Afro já me deparei a ser rejeitada para trabalhos lá por causa do meu cabelo, para o resto do mundo ficam encantados com a farta cabeleira que apresento mas quando chega a Africa, é um nem pensar, por causa do volume do meu cabelo, a ultima vez que fui aceite e fiz um trabalho para Angola, eu tinha uns twists porque era Inverno aqui em Portugal e precisava de proteger o meu cabelo.

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  4. Sabe, ao ler o post, me lembrei de todas as meninas que já me disseram: "Acho cachos lindos, mas não fica bem em mim, por isso aliso". Eu realmente acho que esta realidade complicada, porque as pessoas têm medo/falta de coragem de enfrentar uma realidade opressora e buscar o seu lugar ao sol.
    Nunca alisei o meu cabelo e até hoje sofro duras críticas - principalmente qdo digo que queria que ele ficasse mais black.

    Sobre isso de ser ou não vítima, acredito que a sociedade cria um círculo vicioso de opressão. É aquela velha história que a gente está cansada de saber: desde pequenas crescemos ouvindo que o bonito é ser magra, loira e ter cabelos liso. Os pais que sabem lidar com isso, mostram aos filhos que a coisa não é bem assim. Os que não sabem acabam sucumbindo e deixando que as crianças cresçam levadas por esta maré. Disso, temos como fruto esta vitimização a que a Isa se refere no seu depoimento.

    O grande nó é: como quebrar este círculo vicioso? Acho que a internet abriu muitas portas para isso. Acho que todas nós - que assumimos a nossa negritude - somos exemplos. E é nessa nossa luta diária que vamos derrubando todas estas barreiras. É um trabalho de formiguinha.

    Parabéns pelo post. Adoro quando as palavras geram tantas reflexões!
    Um beijo,

    http://www.algumasobservacoes.com/

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