Blah Blah com Noemia Colonna - Cabelo tipo 4A / Transição Longa.

11:18

Sabe aquelas mulheres que parecem acordarem belas? E aquelas que chegam em qualquer lugar e atraem todos os olhares? Pois eu conheço uma que é assim de verdade! Noemia Colonna é minha tia e a admiro desde sempre.Lembro que eu amava quando ela colocava aquele CD da Gloria Estefan e me rodopiava pelo piso de cerâmica da casa da vovó.
Em 2008 ela me cativou mais uma vez me mostrando o que significava se amar de verdade. Este foi o ano em que a vi pela primeira vez com seus cabelos enroladinhos. Sua força de vontade (e coragem!) me surpreenderam e Tia Noca foi minha base durante a minha transição.
A história dela é minha história e a de tantas outras mulheres encaracoladas. Confesso que chorei de emoção ao escrever esse post.

Conheçam agora um pouco de sua história. Inspirem-se e aprendam a se amar um tanto mais!



1.Conte um pouco sobre você e como é a aceitação do cabelo afro onde você mora.



Olá, meu nome é Noemia e nas horas não vagas sou jornalista e estudante de mestrado em estudos de Mídias em Copenhagen, na Dinamarca. Sou uma mulher negra muito feliz e realizada com o cabelo que a natureza me deu.  Claro que nem sempre foi assim. Como inúmeras meninas e mulheres negras, cresci sem referencial e sem identidade sobre beleza negra. Cresci acreditando que belo era ter cabelos lisos e longos, de preferência batendo na cintura. Mas ainda bem que tive tempo de perceber quanta balela havia nisso tudo, e mesmo tarde (assumi aos 32 anos!), descobri quanta beleza a natureza me deu. No início, recebi muitas críticas da minha família e tive que provar no meu trabalho que era possível, sim, ser apresentadora de TV com cabelos afro e bem cacheadinhos. Quando passei a me respeitar, o mundo também passou e a partir daí comecei a receber vários convites de trabalho, que antes, com os meus cabelos violentados em forma lisa, jamais tinha recebido. 

2. Há quanto tempo seu cabelo é natural?



Durante 6 anos abandonei as práticas mais agressivas de alisamento e passei a somente relaxar, só "prá soltar os cachos". Meu cabelo ficava lindo, mas ainda assim, sentia que estava me boicotando, já que nunca soube como era ter os cabelos totalmente naturais (comecei a alisar com 9 anos de idade). Agora, natural, naturalíssimo mesmo, sem uma gota de química, tem apenas 1 ano e 4 meses. E estou adorando apesar dos inúmeros pesadelos e quase recaídas que tive ao longo do caminho!


3. O que te motivou a parar de alisar os cabelos? Como foi essa jornada? Quais estratégias ou penteados te ajudaram durante a transição?



O que me motivou a parar de alisar os cabelos foi ver outras meninas negras e felizes com os seus "belos" naturais. Depois foi o filme "Good Hair", com o ator norte-americano Cris Rock. fiquei chocada com o que há por trás da mídia e da indústria de relaxamentos, que incita e "burrifica" a mulher negra a alisar os seus cabelos. E por último, constatei que se eu tinha uma cor da pele tao bonita, ela só poderia ser realçada com o que temos de mais orgulho em nossas cabeças, ou seja, os nossos cabelos. Decidi pagar prá ver, e foi o começo de uma nova vida! :-) A jornada foi intensa, porque tentei ser natural duas vezes, e recaí porque não aguentei críticas de ex-marido e de família. Agora, tento pela terceira vez e será a ultima, já que "cresci" e não aceito mais opinião alheia desfavorável ao o que quero ser e ter. E sabe o que acontece? depois de me respeitar, eu nao recebo mais críticas, so elogios e incentivos até de pessoas que antes me desestimulavam!Eu usei tranças por dois ano e depois quando tirei cortei as pontas que ainda tinham química.
Meu segredo para uma pós transição feliz foi: cabelos curtinhos pedem rosto perfeito. Abusava da maquiagem e de brincos grandes de argolas. Depois, lenços e bandanas como rainhas africanas, tiaras de trança nagô (grudadas no couro cabeludo) e uma bela flor segurando um lado do cabelo. Acessórios fundamentais. Ah, uma boa dose de auto-estima também ajuda e muito, principalmente com a ajuda de elogios e estimulos de família e amigos.


4. Como foi a aceitação de seus amigos e família?


Nas duas primeiras vezes que tentei, grande parte da minha família me desestimulou. Mas agora, nessa última vez, não sofro mais nada (até porque estou longe de casa aqui na Escandinávia...). Mas como disse antes, depois que me aceitei, minha família e agora o mundo também me aceita. É claro que tenho minhas aliadas neste processo, né? minha linda sobrinha dona deste blog é minha fiel escudeira e guardiã do meu processo de transicão (levanta minha bola sempre que o desânimo quer bater) e minha cacheadíssima amiga Laura Muradi, que está sempre dando aquela super força para eu manter minha jornada rumo ao encontro de mim com meu cabelinho natural-virgem-da-silva!

5. Como você cuida dos seus cabelos atualmente?


Aboli shampoos. Lavo os cabelos com o condicionador para cabelos cacheados da Tresemmé (eleita por mim a marca mais amiga dos cabelos afro), complemento com a máscara hidratante de 5 min. tb da Tresemmé para cabelos cacheados e uso dois leave-in da marca norte-americana Jessycurl. Uma vez por semana faço hidratação de 30 minutos com a mesma máscara baratinha da Tresemmé reforçada com Óleo de Argan mais carinho. Como aqui na Escandinávia é frio que só, seco com difusor e dou aquela levantada com uma pomadinha fixadora na raiz para ele ficar o mais alto possível, enquanto o comprimento que aguardo nao chega.



6. Como você descreve a textura do seu cabelo?



Não entendo muito bem essas categorias, mas sei que ele é o mais enrolado, é o "kinky" hair, mas o meu está um nível acima desse daí! Meu cabelo é crespo, com cachos mais espiralados que um chacho largo, com definiçao média (vixe!). Preciso de uma ajudinha dos cosméticos para mantê-los cacheadinhos, senão fica com aquele frizz (que também estou aprendendo a aceitar e fazer dele meu estilo, como a Esperanza Spalding, outra musa inspiradora!)


7. Você acredita que o cabelo afro diz algo a respeito de sua identidade?



Não só acredito como vivo isso em meu dia-a-dia. Depois que assumi meus  cabelos afro, muitos me disseram que fiquei mais "preta". Ou seja, maquiava minha negritude com um cabelo alisado que nao me pertencia, e com isso me "embranquecia" aos olhos dos outros e de mim mesma. Quem era eu? Uma cópia mal feita de um padrão "branco" ditado pela mídia e pela sociedade. Quem sou eu hoje? uma mulher negra em todos os sentidos, já que o meu cabelo diz isso mais claramente. Agora, claro que a identidade vai muito mais além dos cabelos, já que existe um monte de negros com cabelos naturalmente lisos, com toda essa belissima mistura de raças que o Brasil nos fornece. E também existe um monte de mulheres negras que preferem alisar os cabelos (o que nao condeno nenhum pouco, cada um tem o direito de ser o que quiser) e vivem sua negritude plenamente sem problema algum. Agora, no meu caso, que o cabelo ajudou a reforçar essa identidade, lá isso ajudou. E adoooooooro!


8. Alguma dica ou mensagem para nossos leitores?



Sim. Ame o seu cabelo como a ti mesmo! brincadeiras a parte, minha mensagem é: descubra como é o seu cabelo e goste dele como sendo só seu. Parar de se comparar é o primeiro passo para uma auto-estima equilibrada e para ser feliz com o seu próprio cabelinho. Eu mesma adora "conversar" com aquele cachinho rebelde, que não pára no lugar e digo:"ok, seja vc mesmo!". E saio poderosa, exibindo meus rolinhos por aí! Longa vida aos cabelos afros e viva as mulheres negras deste nosso Brasil varonil!

     
Tia Noca e eu na época em que ainda utilizava relaxantes



Noemia em transição com o cantor Gilberto Gil



Noemia na época em que usava alisantes


Atualmente



O filme que a Tia Noca fala "Good Hair" eu não tinha visto até essa semana.

Gente, quanto eu via pessoas radicais querendo descer a lenha em empresas de alisamentos, eu sacudia a cabeça, mas depois de ver o filme... Vamos descer a lenha é nos nossos conceitos estúpidos! Quem é que deve ditar como devemos ser? Eu quero mais é que nos amemos e sejamos felizes na nossa própria pele. Fácil, não?

Muito beijo e abraço para encorajar vocês!

Now Playing: Maria Rita - Num Corpo Só

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